Por que focar em "como funciona" é mais libertador do que perguntar "o que você tem"?


    Vivemos um momento de inflação diagnóstica. A prateleira de transtornos mentais parece se expandir diariamente, e com ela, uma tendência crescente à psicopatologização do cotidiano. O sofrimento, a tristeza, a inquietação e até mesmo a excentricidade são rapidamente capturados por manuais diagnósticos, recebendo um nome, um código e, frequentemente, uma prescrição.

    Essa lógica, embora possa trazer um alívio momentâneo ao "nomear o inimigo", traz um risco imenso: ela nos encaixota. Ela opera por uma lógica de déficit, dizendo-nos o que "está quebrado" ou "falta" em nós para sermos "normais".

    É justamente neste ponto que a esquizoanálise, proposta filosófica e clínica de Gilles Deleuze e Félix Guattari, oferece uma virada radical.

O Desvio da Patologia para a Cartografia

    A clínica tradicional, em suas mais diversas formas, muitas vezes parte da pergunta: "O que você tem?". Ela busca um diagnóstico, uma estrutura, um ponto fixo no passado (como o complexo de Édipo) que explique o presente. Ela funciona como um decalque, tentando aplicar um mapa pré-existente sobre o território vivo da pessoa.

    A esquizoanálise subverte essa lógica. Em vez de perguntar "O que você tem?", ela pergunta: "Como isso funciona?".

    Ela não vê o inconsciente como um teatro de dramas familiares, mas como uma usina produtiva. O desejo não é falta, é produção. Assim, o delírio, a ansiedade ou o sintoma não são vistos primariamente como "doença", mas como uma tentativa de solução, uma linha de fuga, um processo em andamento.

    O foco se desloca da patologia (o que está errado) para a cartografia (o que está acontecendo aqui? Quais forças atravessam este corpo? Que conexões estão sendo feitas ou desfeitas?).

 O que é um Processo de Singularização?

    Aqui está o coração da potência esquizoanalítica. Se a psicopatologização nos individua — ou seja, nos transforma em "indivíduos" definidos por uma etiqueta (o "deprimido", o "ansioso", o "bipolar") —, a esquizoanálise aposta nos processos de singularização.

    Singularização não é o mesmo que "individualismo". Pelo contrário. É o processo pelo qual criamos modos de existência únicos, irredutíveis a um padrão ou a uma norma. É a invenção de novas formas de sentir, pensar, amar e se relacionar, escapando das formatações sociais que nos dizem quem devemos ser.

    Enquanto a lógica da patologia busca "consertar" o indivíduo para que ele volte a se encaixar no modelo esperado (seja o modelo de produtividade do trabalho, o modelo de família ou o modelo de felicidade), a clínica da singularização valoriza o desvio.

    Ela entende que o sofrimento, muitas vezes, não é um problema interno do indivíduo, mas um efeito de forças externas (sociais, econômicas, políticas) que nos esmagam, nos padronizam e bloqueiam nossos fluxos de desejo.

A Clínica Como Espaço de Criação, Não de Correção

    Atenção: descolar-se da psicopatologização não significa ignorar o sofrimento. O sofrimento é real, concreto e, por vezes, devastador. A diferença está na atitude clínica:

  1. Em vez de reduzir: O objetivo não é reduzir a complexidade da pessoa a uma sigla do DSM. É expandir, perguntando: "O que essa ansiedade está tentando dizer sobre o mundo em que você vive? Que potências ela bloqueia e que potências ela pode estar, paradoxalmente, tentando criar?".

  2. Em vez de adaptar: A meta não é (necessariamente) adaptar a pessoa à realidade normativa. A meta é sustentar o processo para que a própria pessoa possa inventar sua própria realidade, seus próprios territórios existenciais.

  3. Em vez de interpretar: O analista não é aquele que "sabe" o significado oculto. Ele é um parceiro de cartografia, alguém que ajuda o outro a mapear suas próprias linhas, seus impasses (linhas duras) e suas linhas de fuga (criação).


    Uma Clínica Para Vidas Invulgares

A potência da esquizoanálise reside em sua ética: ela recusa a ideia de uma "vida normal" como meta. Ela nos convida a tratar cada pessoa não como um caso a ser diagnosticado, mas como um universo singular em processo de criação.

Num mundo que insiste em nos rotular, padronizar e medicar para que caibamos em caixas cada vez menores, uma clínica voltada aos processos de singularização é mais do que uma escolha terapêutica; é um ato de resistência política e de afirmação da vida em sua potência máxima de invenção.